SILÊNCIOS SENSÍVEIS E VISÍVEIS

(A PRESENÇA DA FOTOGRAFIA EM POEMAS DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE )

 

Roseli Broering Dos Santos – UFSC

 

 

Introdução

 

Trabalhar com questões de imagem e poesia é, para mim, tarefa desafiadora, pois requer uma certa experiência em áreas um tanto recentes, quando ligadas às formas de manifestação cultural pelo viés da Literatura.

Estudos recentes e publicações diversas na área, têm demonstrado que o campo das imagens vem se destacando no universo das letras, manifestando-se de forma decisiva na formação de novos conceitos e diferentes padrões com os quais estamos acostumados e, porque não dizer, mais aptos a desenvolver.

O presente trabalho não pretende inovar, mas sim, lançar algumas sementes para estudos futuros mais aprofundados na área literária. Sem querer ousar mas, de certa forma, ousando, tentarei caminhar levemente pelos enveredados caminhos da poesia de CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE e descobrir nela elementos imagéticos advindos de um tempo remoto, mais precisamente das lembranças passadas e armazenadas na mente do autor – matéria de poesia – desvendando seus meandros e tentando descobrir no universo das palavras organizadas, a presença e a sensação de imagem que provoca no leitor.

Ao tratar do assunto IMAGEM me vem à mente a palavra FOTOGRAFIA, grande invento, senão um dos maiores do final do século XIX que surge num momento em que o homem estava em plena "lua-de-mel" com a máquina. Cláudio Araújo Kubrusly, em seu ensaio O que é a Fotografia ( Brasiliense, 1991 ) escreve:

 

 A indústria parecia ter vindo para resolver todos os problemas da humanidade. As linhas de montagem e o poder das máquinas a vapor surgiam como garantia de progresso e prosperidade para todos. A industrialização tornava tudo mais barato. Cada um podia ter acesso a um número maior de bens antes inatingíveis. Neste contexto, a fotografia emergiu quase como uma forma industrial da imagem, que nascia apoiada na misteriosa "máquina de pintar". Para uma humanidade apaixonada, os frutos da Máquina eram sempre bem-vindos.

 

Nos últimos tempos, várias e diferenciadas reflexões vêm sendo feitas sobre a presença da fotografia no cotidiano das pessoas. Áreas específicas, como a Antropologia Visual, Comunicação e Semiótica, Comunicação e Artes estão trazendo à luz da cultura, novas visões sobre as imagens e sua representação no mundo atual onde elas estão em toda a parte, fazendo o seu papel no mundo globalizado. Além disso, estão sendo revistas algumas manifestações fotográficas mais antigas. É o caso de documentos fotográficos que comprovam a história. Um exemplo disso são os estudos recentes sobre as fotografias feitas pelo escritor Mário de Andrade, quando de suas viagens pelo Brasil. As fotos que armazenou ao longo delas, servem hoje para estudos sobre o grande e múltiplo Mário. Há todo um acervo de fotos que documentam lugares, pessoas e situações históricas que foram, aos poucos, modificadas quer pela presença do homem, quer pela mudança de seu pensamento. ( sobre este assunto, recomendo o ensaio de Amarildo Carnicel – publicado em O Fotográfico – HUCITEC, 1998 "O Olho Etnográfico de Mário de Andrade" )

Isto reforça a teoria de que a fotografia é elemento essencial na vida moderna pois, além de documento é também fonte de inesgotáveis surpresas, surpresas essas que nos fazem viajar no mundo da imaginação, já que muitas vezes nos põe diante de lugares e situações que não presenciamos mas, que sabemos terem existido.

Mas há ainda uma outra forma de estarmos em contato com um outro tipo de fotografia: aquela que não vemos explicitamente pois está presente na mente de outra pessoa e se manifesta, se mostra a nós através da palavra escrita.

É esse o espírito deste trabalho: ver na palavra expressa por DRUMMOND em forma de poesia, as imagens de seu inconsciente, sua infância e memória e como se manifestam na arte escrita. Diversos olhares a se mesclarem num mundo interior que vêm à tona através da magia da linguagem.

Para isso, selecionei alguns poemas que tratam do tema fotografia que, ao longo de minha exposição, irei intercalando ao texto. Não é minha intenção fazer aqui, análise dos poemas e sim, demonstrar o quanto aparecem nas construções poéticas as manifestações fotográficas, quer sejam mentais ou visuais e como elas são captadas pelo leitor.

José Saramago, em seu livro Manual de Pintura e Caligrafia , diz que "a pintura não é mais que a literatura feita com pincéis". Seria então a fotografia nada mais do que a literatura feita com sombras e luzes ? Sombras e luzes que, aqui, guardadas na lembrança do poeta, mostram-se através da linguagem-palavra-poesia.

 

Apresentação

 

Um homem se questionava sobre o espírito presente não na natureza, mas no fundo do espelho diante do qual se reencontrava cada manhã. Ele perguntou-lhe, fixando-o profundamente: "Será que um dia você poderá me ver como eu te vejo, ver como vê um ser humano"? O espelho começou a refletir longamente e a analisar quais seriam suas maneiras próprias de ver e de olhar. Enfim, ele imprimiu sua resposta sobre o fundo de estanho, como todos os espelhos fazem. O homem se extasiou quando descobriu essas palavras, impecavelmente traçadas sobre a superfície polida: "Isto-me-lembra-uma-história". O espelho lhe respondeu: "São pequenos nós, maneiras de ser atadas e reatadas, modos de ser reunidos, como você e eu, estamos, neste momento". Acrescentou: "Minha história não é apenas a sua, a de seu pai e de sua mãe, a história do feto que você foi e – antes disso – a história do nascimento da animalidade e a história da emergência da vida; é também a história do nascimento da sombra e da luz, a história de teus olhos que aprenderam a ver e a não poder ver, a história das representações humanas e da perspectiva, a história das imagens que fabrico e das imagens que você concebe para tentar se entender. Todas essas histórias são escritas em mim e em você, mesmo que elas não sejam, dentro de nós, imediatamente legíveis". O espelho, então, estremeceu e, em seguida, esfacelou-se no chão. Perante o homem, havia apenas uma fotografia. [1]

 

Este texto me faz , como no espelho de Etienne e Bateson, refletir sobre certas fotografias que temos presas na mente. Imagens que mantemos guardadas, gravadas e que, num dado momento, vêm à luz da verdade, clarear o que antes não poderíamos entender.

Há muitas formas de permitirmos que estas imagens se tornem reais para que possam ser vistas ou sentidas pelos que estão à nossa volta. Li certa vez num ensaio o qual deve ter se perdido na minha memória, que um fotógrafo, ao tentar definir o que era, para ele, a fotografia, contou uma história de sua infância, de uma imagem que trazia consigo por muitos anos. Disse que desde muito pequeno, lembrava de uma cena que vira, sem lembrar exatamente aonde, de um mar imenso e azul. Contava que esta presença lhe era marcante e que , apenas muito tempo depois, soube separar de seu imaginário como sendo uma cena que recordava muito antes de saber o que era o mar propriamente dito e bem antes de perceber que aquele mar era escrito de forma tão pequena, com apenas três letras.

Acho muito significativo este relato pois nos põe diretamente a par dos conceitos de referente e significado e também me permito aqui tomar posse desses conceitos para trazê-los para a apresentação deste trabalho – dividido em duas partes – A Imagem pela Palavra e a Palavra pela Imagem , que tratará de rever poemas de CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE , para encontrar neles as imagens presas, lacradas na sua memória, na sua maneira de olhar o mundo, quer seja interior ou exterior. Evgen Bavcar , fotógrafo eslaveno, cego desde os onze anos de idade, diz : "O que vem a ser portanto um olhar? É talvez a soma de todos os sonhos, cuja parte de pesadelo se esquece, quando a gente pode pôr-se a olhar diferentemente... ", ou ainda Etienne Samain , "As fotografias gostam de caçar na escuridão de nossas memórias. São infinitamente menos capazes de nos mostrar o mundo que de oferecê-lo ao nosso pensamento. " ( O Fotográfico – HUCITEC, 1998, p. 13 )

Seria então a fotografia a expressão mental ou visual de "um outro modo de olhar", uma história interior que nos fascina pois é imagem formada de fotos que nunca fizemos e que talvez jamais faremos ?

E o Poeta que deixa, por instantes, de cantar suas musas e passa a " revelar " seus instantes memorizados através da palavra escrita em cenas armazenadas em seu íntimo que só ele conheceu ou viu. Seria ele o tradutor de uma nova forma de olhar o mundo ou revê-lo, trazendo-o à luz ou sombra de seu público leitor, na forma poética, um documento de seu imaginário ?

São estas as questões que este trabalho pretende desenvolver a partir de agora. Como diria Kafka: " Fotografam-se coisas para expulsá-las do espírito. Minhas histórias são uma maneira de fechar os olhos. " Vou um pouco mais além e digo que DRUMMOND expulsou de seu íntimo as imagens e nos deixou um legado poético-fotográfico digno de ser refletido em nossas almas, um prelúdio de uma resposta para a história do espelho que iniciou esta apresentação.

 

I – A IMAGEM PELA PALAVRA

 

Para dar início à primeira parte deste estudo, vou direto ao poema.

 

LEMBRANÇA DO MUNDO ANTIGO

 

Clara passeava no jardim com as crianças.

O céu era verde sobre o gramado,

A água era dourada sob as pontes,

Outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,

O guarda-civil sorria, passavam bicicletas,

A menina pisou a relva para pegar um pássaro,

O mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranqüilo em redor de Clara.

 

As crianças olhavam para o céu: não era proibido.

A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo.

Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.

Clara tinha medo de perder o bonde das onze horas,

Esperava cartas que custavam a chegar,

Nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava pelo jardim, pela manhã!!!

 

Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!

 

 ( C. D. A. – Antologia Poética – p. 97 )

 

Como o próprio título explicita, o poema é a reunião de uma série de lembranças de um mundo antigo que, com a chegada da modernidade, passou a existir somente na memória do poeta. José Moura Gonsalves Filho, em seu ensaio – "Olhar e Memória" ( São Paulo, Cia das Letras, 1988 ) teoriza:

 

O olhar que desperta em direção ao passado, divertindo-se e

compenetrando-se nas imagens de um outro tempo, suscitadas nos

materiais e nas obras que a memória impregnou, longe de

constituir-se num impedimento nostálgico à história, instaura um

desequilíbrio na reação com o presente, presente vivido e

representado como progresso.

 

 O poeta descreve Clara, uma menina. Nome bastante sugestivo pois lembra pureza, inocência e a claridade que inebriava as manhãs quando se saía para passear, num tempo em que se podia fazer isso.

Tempo, elementos da natureza, cotidiano simples de uma cidade que ficou perdida na lembrança de quem narra, de quem viu e viveu as mesmas coisas e que se vê diante de uma realidade secundária. O poema, assim, aprisiona o leitor pois o faz buscar em sua mente uma imagem correspondente à que seu autor expôs na escrita: Clara – a personagem.

Quem seria Clara? Como seria viver num tempo onde haviam jardins, manhãs, onde o medo se resumia à perda do bonde e a espera de cartas e onde a paz se resumia em passear tranqüila pelos jardins ?

O poema suscita a imagem, desperta a busca de uma memória correspondente ao texto que se impõe aos olhos, quase sempre, desatentos do mundo moderno, como se esta resgatasse a vida que ficou perdida, para trás num passado distante e presente, em forma de poesia.

Se o poema desperta o imaginário, uma ou várias imagens podem surgir ao lê-lo mesmo que o leitor só tenha conhecimento deste tempo através da história que apreendeu ao longo de suas leituras ou que lhe foram relatadas . Diferentes fatores culturais, geram diferenciadas cenas mentais. Ouso aqui quando, como uma amante da fotografia, expresso a minha visualização.

 

Assim eu vejo Clara:

 


 


Um outro poema que nos põe diante de um imaginário aguçado é A CASA DO TEMPO PERDIDO. Nele, diferente do anterior, DRUMMOND nos coloca diante de uma construção em ruínas. Metáfora talvez do tempo passado, tempo que destrói, que não mais acalenta os sonhos e ideais e sim, as recordações. Novamente se remete e nos remete à reflexões acerca dos conceitos de progresso, aqui representados por um casarão vazio e condenado mas, tudo isso metaforicamente representando um ser que morre diante da impossibilidade de segurar o instante, o momento. Casarão condenado ao esquecimento de um povo sem memória ? Quem sabe...

DRUMMOND aqui volta a tratar do mesmo tema com suas palavras simples e corriqueiras, o que não diminui a profundidade do poema pois este evoca um tempo que já não existe e não pode ser recuperado ou, segundo o próprio poema, perdido e inexistente.

 

            A CASA DO TEMPO PERDIDO

 

               Bati no portão do tempo perdido, ninguém atendeu.

               Bati Segunda vez e outra mais e mais outra.

               Resposta nenhuma.

               A casa do tempo perdido está coberta de hera

               pela metade; a outra metade são cinzas.

 

               Casa onde não mora ninguém, e eu batendo e chamando

               pela dor de chamar e não ser escutado.

               Simplesmente bater. O eco devolve

               minha ânsia de entreabrir esses paços gelados.

               A noite e o dia se confundem no esperar,

               no bater e bater.

 

               O tempo perdido certamente não existe.

               É o casarão vazio e condenado.

 

 ( C.D.A – FAREWELL – p. 15 )

           

Fosse este poema uma imagem real fotografada , esta dirigiria-se apenas para ela mesma, ou seja, falaria por si. Em se tratando de escrita, diria quedesperta imagens interiores que vão se formando à medida em que se lê o texto. Isto porque temos o imaginário mental que aflora quando estamos em contato com as palavras, principalmente neste tipo de poema que evoca ligações à temas instigantes pois fala de tempo, de fragmentos instantâneos que compõem um todo irreal, porém sentido.

Que tempo é este a que se refere o poeta? Um tempo que tem portão onde se bate e ninguém atende? O tempo perdido do poeta é delimitado pelo espaço imaginário de uma casa . Ora, o tempo não possui espaço físico . Pode-se dizer que DRUMMOND utiliza-se de comparações entre o real palpável e o mental, ligado ao pensamento para tecer suas considerações sobre o que é perdido, no que foi vivido e que não pode voltar mais numa evocação saudosista de quem "perdeu o bonde e a esperança ". Cabe ao leitor criar a partir da palavra-poema as suas imagens que a caracterize para guardá-las no coração, cuidadosamente, como se faria talvez com um álbum que contivesse lembranças caras retratadas, eternizadas.

Ainda "passeando" pelos poemas do autor, extasiada em meio a tantos significativos poemas detentores de imagens simbolicamente desenhadas nas entrelinhas, deparo-me com um que "fala" por si só:

 

EU QUISERA VER O MUNDO

 

Eu quisera ver o mundo

Como vê Sérgio Bernardo:

Ver, no mundo, os muitos signos

Que vigiam sobre as coisas.

 

Sentir, sob a forma, as formas,

Os segredos da matéria,

Mais a textura dos sonhos

De que se forma o real.

 

Ver a vida em plenitude

E em seu mistério mais alto;

Decifrar a linha, a sombra

A mensagem não ouvida

Mas que palpita da Terra.

Eu quisera ter os olhos

Que assim penetram o arcano

E o tornam ( poder da imagem )

              

Um conhecimento humano.

 

 ( C.D.A – AMAR SE APRENDE AMANDO – p. 56 – grifos meus )

 

O poema acima parece dizer sozinho o que o autor pensa sobre os diversos olhares que se entrecruzam entre a palavra e a imagem. Todo um modo peculiar de olhar, de ver e passar para a Poesia o que lhe vai além da alma, gravado na mente, bem situado na memória de alguém que, certa feita julgou-se "Um eu todo retorcido" , escreveu um POEMA DE SETE FACES , teve "um anjo torto desses que vivem à sombra" a lhe dizer: "Vai, Carlos! Ser gauche na vida."

 

"E agora José ?...

José, e agora? ..."

 

2 – A PALAVRA PELA IMAGEM

 

Estou agora no lado inverso do que até aqui vim tratando. Não que fosse minha intenção inverter certos quadros mas, sim, apresentar um "outro lado", mais um diferente modo de olhar dos muitos que DRUMMOND estampou em suas obras. Pretendo mostrar mais uma de suas "Sete Faces", múltiplas faces de um poeta completo.

 

OS MORTOS DE SOBRECASACA

 

Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis,

alto de muitos metros e velho de infinitos minutos,

em que todos se debruçavam

na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca.

Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes

e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos.

Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava

que rebentava daquelas páginas.

 

                ( C.D.A – ANTOLOGIA POÉTICA – p. 165 – grifos meus )

 

O poema acima me faz lembrar Roland Barthes que, em A CÂMARA CLARA, escreveu:

 

A Fotografia não fala (forçosamente) daquilo que não é mais,

mas apenas e com certeza daquilo que foi. Essa sutileza é

decisiva. Diante de uma foto, a consciência não toma

necessariamente a via nostálgica da lembrança (quantas

Fotografias estão fora do tempo individual), mas, sem relação a

qualquer foto existente no mundo, a via da certeza: a essência

da Fotografia consiste em ratificar o que ela

representa..."(p.129)

 

O poema de CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, acima, vem nos descrever não apenas uma cena de um álbum abandonado num canto de uma sala qualquer mas, sim, o que ele em seu conjunto de fotos, representa para um espectador solitário que reflete sobre a presença lacrada no papel de seres que existiram nalgum tempo, confirmando deste modo a teoria de Barthes quando diz que "toda Fotografia é um certificado de presença".

OS MORTOS DE SOBRECASACA é, ao inverso dos abordados anteriormente, um poema escrito a partir de uma imagem , de uma cena aparentemente vista pelo poeta que , em sua visão descreve o que vê, em seu modo peculiar de passar ao leitor as noções de importância , ou, como no próprio subtítulo do capítulo da Antologia Poética – TENTATIVA DE EXPLORAÇÃO E DE INTERPRETAÇÃO DO ESTAR-NO-MUNDO. É este conceito de participação do mundo e nas observações atentas ao que lhe rodeia, que DRUMMOND busca e encontra sua matéria poética.

Um outro exemplo de construção poética partindo de imagens vistas e analisadas, encontrei novamente em Farewel. Trata-se de uma série de poemas denominada ARTE EM EXPOSIÇÃO ( p. 29 – 37 ) , em que seu autor poetiza imagens de quadros famosos. Passo a transcrever alguns exemplos:

 

AUTO-RETRATO              ( Soutine )

 

Sou eu ou não sou eu?

Sou eu ou sou você?

Sou eu ou sou ninguém,

E ninguém me retrata?

 

 

GENTIL HOMEM BÊBADO ( Carrá )

 

De Baudelaire o conselho:

É preciso estar sempre bêbado.

Além do imaginário e do real

É preciso estar sempre sóbrio

Para pintar a bebedeira.

 

Infelizmente, não consegui os quadros que são referenciados neste dois poemas para que fosse possível, de posse da imagem artística retratada em pintura, comparamos a escrita do poema com a tela emoldurada. Sei pois, que estas imagens são de alguma forma já presentes como signo em minha mente bem como na mente de muitos leitores, o que já possibilita a observação precisa da visão do poeta em transformar em linguagem escrita a imagem vista.

A título de ilustração, transcreverei abaixo um outro poema da mesma série, então com a figura para que possa tecer alguns comentários a respeito deste tópico – A PALAVRA PELA IMAGEM .

 

RETRATO DO CASAL ARNOLFINI ( Jan van Eyck )

 

A imagem reproduz-se até o sem-fim.

O casal sem filhos

Gera continuamente nos espelhos

A imagem do perpétuo casamento.

 

Temos aqui a representação perfeita da visão do poeta quanto ao fato interessantíssimo de transformar em palavras uma imagem vista e refletida a partir da mente do autor. DRUMMOND leu o quadro e o tornou Poesia.

Creio ainda que, muito além disso, posso agora concluir este trabalho pois é exata a visão do espelho, foco inicial desta tentativa de análise de presença de imagem em textos, quer seja mental do íntimo do poeta, quer seja real do domínio do público leitor.

Diz o ditado popular que " Uma imagem vale mais que mil palavras". Diria eu que as duas andam juntas, uma completa a outra pois são igualmente formas de expressão da Arte, neste caso, poética.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE soube manifestar seu saber e entendimento poético de maneira brilhante nas duas formas: A palavra pela imagem e a imagem pela palavra.

Vejamos agora uma reprodução da tela de Jan van Eyck .


 

 


CONCLUSÃO

 

Penso que o homem é infinitamente capaz de criar imagens, quer seja em seu mundo interior, mental ou espiritual, quer seja em seu mundo realista e visível. Fotografar pessoas, natureza, objetos e cenas das mais variadas é, antes de tudo, para mim, uma grande paixão que, unida à Poesia tem me trazido grandes conhecimentos e, a cada dia, a cada novo trabalho, novas emoções. Hoje já não sei mais como separar as duas Artes. Andam juntas, estão em meu íntimo.

Pensar e escrever SILÊNCIOS SENSÍVEIS E VISÍVEIS acabou por tornar-se para mim tarefa desafiadora pois me vi – aqui tomo emprestadas as palavras de DRUMMOND – diante de "uma pedra no meio do caminho" sem saber em alguns momentos por que trilhas seguir para não me perder diante de tanto material que acabei por conseguir.

Vários livros, teorias diversas, autores emocionados, apaixonados pela Arte tanto da escrita quanto da imagética, me fizeram descobrir novidades que eu nem supunha existir, fato este que considerei fundamental no meu trabalho, que ora entrego.

Afirmei no início se tratar apenas de uma tentativa de inovação, coisa que nem mesmo sei se é. O que soube, ao longo de seu desenvolvimento é que todas as teorias de que dispunha, tendiam apenas para um lado: A PALAVRA PELA IMAGEM, ou seja, o "outro lado da moeda", a "outra forma de olhar " me foi escassa em material. Tive que enveredar-me pelos caminhos da sensação, daí a palavra SENSÍVEIS no título deste ensaio. Ao final, creio que atingi o meu maior objetivo que era trabalhar as questões da Imagem e Poesia nos poemas de CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, poeta a quem, confesso, não conhecia muito bem mas que, ao longo das reflexões e leituras para este fim, acabei por conhecer e pelo qual me apaixonei.

São inúmeros os poemas do autor que tratam do tema Fotografia, explícitos muitas vezes pois utiliza a própria palavra em vários de seus textos. Conforme também mencionei no início, um estudo mais aprofundado talvez fosse merecido. Merecemos nós, acadêmicos sedentos por novidades, merece o grande Poeta para, como num papel fotográfico, permanecer eternizado mas, por ora acredito que já fui longe demais e, devido à limitação de espaço e tempo, fico mesmo por aqui , porém ciente de que o assunto não se esgotará com o ponto final deste trabalho pois, feito poemas que pululam dentro da gente, novos estudos surgirão e, quem sabe eu o retome numa próxima oportunidade.

Para encerrar, gostaria de citar André Bazin num dos textos mais significativos, sobre Fotografia, que já tive a oportunidade de ler, escreve:

 

... a fotografia não cria, como a arte, eternidade, ela embalsama o tempo, simplesmente o subtrai à sua própria corrupção.

 

 

 

Referências Bibliográficas:

 

ANDRADE, Drummond Carlos.  Farewel. Rio de Janeiro: Record, 1997

ANDRADE, Drummond Carlos. Antologia Poética. São Paulo: Abril Cultural, 1982.

ANDRADE, Drummond Carlos.. Amar se aprende amando. Rio de Janeiro: Record, 1982

BARTHES, Roland. A Câmara Clara. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984

BAZIN, André. Ontologia da imagem fotográfica in O cinema. São Paulo, Brasiliense, 1991.

BENJAMIN, Walter. A arte na era da reprodutibilidade técnica In Magia e técnica, arte e política . São Paulo, Brasiliense, 1985.

GONSALVES, José Moura Fl. Olhar e memória in O olhar .São Paulo: Companhia das Letras, 1988.

KUBRUSLY, Cláudio A. O que é a fotografia.São Paulo: Brasiliense, 1998.

NEIVA, Eduardo Jr. A Imagem. São Paulo, Ática, 1994.

SAMAIN, Etienne . org. O Fotográfico. São Paulo: Hucitec, 1998.



[1]Etienne Samain, parafraseando Gregory Bateson in O Fotográfico p. 11